Não há dúvidas de que a França é o país em que a cinematografia surgiu. Em uma noite de dezembro de 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière organizaram sua primeira exibição pública e transmitiram dez de seus filmes no Grand Café, em Paris, na qual um de seus maiores destaques foi a filmagem de operários saindo de uma fábrica em Lyon. Assim, a partir do enquadramento de imagens do cotidiano, o fascínio pelo cinema foi se consolidando e atravessando fronteiras. Outra personalidade extremamente importante foi Georges Méliès, que construiu seu primeiro estúdio onde rodaram centenas de filmes, em sua maioria com cenários pintados, uma câmera e filmes coloridos à mão, como “Viagem à Lua” (1902), sua obra de maior notoriedade considerada a primeira narrativa do cinema.

Museu Méliès, Paris. Arquivo pessoal de Júlia Menezes.
Muito rapidamente, tendências do cinema foram surgindo: do filme mudo ao falado, do preto e branco ao colorido, da comédia ao drama, do documentário à ficção, além das novas tecnologias que eram criadas em concorrência com o cinema americano que historicamente apresentou um mercado maior do que o francês. Ainda assim, o cinema francês se estabeleceu com um forte diferencial que é muito reconhecido pelo mundo, há uma caricatura mais intelectual, por muitas vezes manifestar temáticas de relutâncias sociais, políticas e históricas, como também experimentações que evocam o interior dos indivíduos e seus sentimentos mais complexos.
Seguindo esse conceito em conjunto as tantas mudanças políticas do último século, a Nouvelle Vague surge no final da década de 1950 como um movimento artístico do cinema francês e considerado por muitos como revolucionário. Jovens cineastas filmavam de forma improvisada histórias simples e às vezes autobiográficas, quebrando as regras de uma arte cinematográfica tradicional. Nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Agnès Varda e Claude Chabrol trouxeram às telas um cinema autoral com obras mais pessoais e que marcaram para sempre a historiografia do cinema. “Hiroshima mon amour”, “Cleo de 5 à 7”, “À Bout de Souffle”, “Les Quatre Cents Coups” são alguns dos diversos títulos que podemos citar e recomendar.



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No entanto, é notável que a indústria cinematográfica oferece espaços cada vez maiores aos filmes produzidos principalmente em Hollywood, deixando de lado filmes de outros idiomas, com menores produções ou ainda mais independentes. Com a modernização dos espaços urbanos, tornou-se difícil encontrar locais que transmitam filmes franceses, por exemplo, deixando a experiência totalmente dependente aos atuais streamings. Cinemas de rua foram com o tempo demolidos ou substituídos por outro estabelecimento, tendência essa que desde os anos de 1980 vem se instaurando por todo o Brasil. Contudo, a cidade de Paris é um exemplo de resistência a essa dinâmica ao proporcionar inúmeras salas de cinema espalhadas pelas ruas, como na famosa região do Quartier Latin. Lá, encontramos a Filmothèque du Quartier Latin, um cinema independente composto por duas salas e que se destaca pela programação repleta de reedições de clássicos em versões restauradas, além de retrospectivas e festivais. Todos os dias, grandes filas são formadas ao redor da pequena filmoteca, sejam de parisienses, turistas ou qualquer um que deseja desfrutar de uma sala de cinema aconchegante e aquecida por algumas horas.



Filmothèque du Quartier Latin, Paris. Arquivo pessoal de Júlia Menezes
Inspirada nisso, a Aliança Francesa de Campinas, em parceria com o Institut Français, oferece a transmissão de filmes clássicos em sessões mensais e gratuitas no Museu da Imagem e Som, localizado na região central de Campinas, e que detém a única sala pública de cinema da cidade. Nesse mês de outubro será projetado o clássico citado, “Hiroshima mon amour”, de Alain Resnais. Em novembro, o filme apresentado será “À Bout de Souffle”, sucesso de Jean-Luc Godard. Esperamos que essa seja uma oportunidade para que campineiros tenham um maior contato com a língua e a cultura francesa, como também possam se envolver com esse mundo cinematográfico tão grandioso e magnifique.
